sexta-feira, 13 de maio de 2016

Meu abraço em Dilma e sobre um outro abraço





O desfecho da primeira fase do processo de impedimento da presidente Dilma me fez lembrar que a História, desde muito antes de Jesus, tem fabricado mártires em todas as lonjuras. Gente que se ofereceu ou foi oferecida em sacrifício por sua crença ou sua causa ou seu sonho pela salvação de um coletivo.
Ou foi imposta a esse martírio por seus inimigos.

Aqui mesmo, nesta terra de Michel Temer, Eduardo Cunha e seus siameses, sucedeu o episódio reconhecido pela Igreja Católica como o dos “Quarenta Mártires do Brasil”. Envolveu um grupo de 40 jovens, entre 20 e 30 anos de idade, alistados na Companhia de Jesus.
Vinham de Portugal e da Espanha, em 1570, numa missão de catequização, quando o navio em que viajavam foi interceptado por calvinistas franceses. Descobertos como missionários católicos, acabaram martirizados e atirados sem clemência ao mar deste lado de cá do mundo, até ali insondável.
Quatro séculos depois, a América Central registrou a imolação do religioso católico salvadorenho Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, que denunciava a repressão em seu país e a execução de quem a contestava. Dom Romero foi assassinado com um tiro em pleno altar da igreja onde celebrava uma missa no dia 24 de março de 1980.
Também há mártires protestantes na História. Gente igualmente sacrificada por sua fé, como Anne Askew, poetiza luterana inglesa, queimada viva numa fogueira em 1546. Ou Heinrich von Zütphen, reformador alemão, outro queimado por católicos após ser massacrado na prisão, em 1524.
Ou ainda Martin Luther King Jr., o lendário pastor protestante dos Estados Unidos, que, em sua pregação de amor aos semelhantes, foi um dos maiores combatentes pelos direitos civis dos negros no planeta. Luther King foi assassinado em 1968.
Há, por fim, os mártires não religiosos. O sul-africano Nelson Mandela passou 27 anos na cadeia, subjugado por brancos. Tiradentes, na conclusão de seus ideais de Brasil livre, foi enforcado e esquartejado.
E há os anônimos, sobretudo pobres e pretos, que tombam todos os dias ou já tombaram nos guetos, aqui bem perto, nas favelas e nos subúrbios.
Houve ainda os jovens assassinados pela ditadura militar – e os quase-mortos por ela, que escaparam depois de presos e brutalmente inquiridos e barbaramente torturados, cuja alma foi doloridamente marcada pra sempre.
Conheci alguns. Votei em alguns.
Todos os mártires, mesmo os que sobrevivem ao martírio, quase sempre muito adiante de sua aflição, acabam abraçados pela História um dia. Com Mandela, o primeiro presidente negro eleito na África do Sul, foi assim.
Num sentido mais coletivo, com Dilma Rousseff e seus companheiros de prisão e de padecimento na tortura, também.
A jovenzinha duramente agredida no porão do regime de 1964 sobreviveu pra se eleger duas vezes presidente da República do Brasil. Sobreviveu pra ser entronizada como a primeira mulher presidente da História da nação brasileira, nação tão misógina e sexista na avaliação de suas protagonistas femininas.
Pois Dilma talvez também entre pra História universal como a única vivente feita mártir duas vezes. Uma, na ditadura cruel de seu país; outra, agora, no seu sacrifício de governante honesta e inocente, até prova em contrário, imolada num tribunal politizado e injusto por crimes que não cometeu e sequer estavam em julgamento.
Seu governo tão ruim, tão já esgarçado e no limite do desastre e da sem-saída e do sem-jeito, nem isso estava em julgamento.
A presidente não cometeu os pecados de pecúnia atribuídos a seus pares petistas, aliados e até não aliados. Não é ré no Supremo Tribunal Federal, como seu algoz Eduardo Cunha. Não concorreu à condição de ficha-suja ou de inelegível, como o vice e agora presidente interino Michel Temer. Não roubou. Não desviou. Não enriqueceu.
Agradeço a ela por isso. Obrigado, dona Dilma. Obrigado por não se igualar a tantos homens que rodeavam seu tailleur no palácio e por ter resistido com tanta dignidade a tamanhas indignidades cometidas contra a senhora ou bem perto da senhora.
E não vou esperar a História pra lhe dar o meu abraço sincero de carinho e gratidão por sua conduta.
Ganhar abraço de carinho sincero é tão bom. Aceite o meu, presidente. Só entende plenamente este tipo de abraço quem o recebe. Dou já o meu na governante afastada, mas legitimamente eleita em 2010 e reeleita em 2014 e desempossada neste triste 12 de maio de 2016.
Desempossada pra dar lugar a um novo governo, um que já nasce velho e já começa a ser chamado por aí de porcaria – aliás, único substantivo feminino (“porcaria”) presente em seu primeiro escalão repleto de homens, os de sempre.
Ganhar abraço de carinho é tão bom, presidente. Aceite mesmo o meu. Ainda ontem eu ganhei um assim. Um abraço comprido que paralisou meu dia. Um que pareceu estancar os sinais de trânsito a meu redor e abafar o barulho dos ônibus e segurar a mão perversa de todos os malfeitos planejados no mundo – em Brasília, inclusive.
Um abraço longo, cuja duração foi maior que a intenção da oferta, mas que a força da procura estendeu.
Invadido por tantos cheiros esse abraço que eu ganhei, presidente. Dedico à senhora um abraço igual. Com cheiro do mato de São Pedro da Serra. Cheiro de madrugadas no Jardim Botânico. Cheiro do quarto da minha infância em Morro Agudo. Cheiro das pedras das Ilhas Tijucas lavadas com o sal do mar batido em suas bordas. Cheiro de banho recém-tomado, de lençóis azuis limpos e de roupa saltada há pouco da gaveta. Cheiro de um amor único. Cheiro de criança de cabelo molhado, correndo pela casa.
Um abraço tão bom que senti vontade de doar, a quem mais eu gosto e preservo, um pouco da sensação de calma despertada pelo enlace de corpos no meio da rua movimentada. Vontade de doar um pouco do abraço bom a meus iguais, a cada um dos meus filhos, a cada um dos meus amigos.
Doar um pouco desse abraço a toda a vizinhança. Um pouco pra toda a cidade e um pouco pro país todo – e mais um pouco pra todas as pessoas dignas de abraço neste dia de discórdia e de conflagração política e de divisão que subtrai e não soma, de multiplicação de incertezas, dia de insensatez e de escassez de esperança no que vem a seguir.
Abraçar é bom, presidente. A senhora sabe. Abraço de saudade. Abraço de amor. Abraço de amigo. Abraço de filho. Abraço de acolhimento. Abraço que não é de adeus, mas de até breve. Abraço de quem, no silêncio, só quer dizer com seu gesto um “ei, estou junto, não esmoreça, não se recolha nem se esconda, vamos seguir”.
Ganhar abraço é tão bom. Aqui vai o meu, presidente. Com carinho e gratidão, aqui vai o meu.

0 comentários :

Postar um comentário