segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Uma empresa estratégica: mudanças recentes

 Petrobras se fortalece

A Petrobras reafirma seu papel estratégico, investindo em exploração, transição energética e refino, ajustando sua política de preços
Abraham. B. Sicsú/Vermelho

Uma conversa mais que protocolar, mono tônica. Em um café da cidade. Pouco se avança em assuntos relevantes. De repente, surge algo que me interessa, mas não se aprofunda. A retomada do papel estratégico da Petrobras. Pouco sei sobre o tema, vou estudar.

Ao falar de estratégia eficiente, necessário faz-se analisar o ambiente em que está inserida, o mercado a que pretende atender, a concorrência que deve enfrentar e as diretrizes que norteiam o plano estratégico do seu negócio.

É estratégica, pois sem ela não haveria campos do pré-sal, o avanço técnico científico em águas profundas, as refinarias que dispomos atualmente, a logística de gás, os avanços nas novas energias, que começam a ser notados, entre outros.

Estaríamos à mercê dos grandes grupos internacionais na área de energia e condicionados às suas decisões e orientações. Ela nos permite optar por caminhos fundamentais para a nova matriz energética e escolhermos uma inserção melhor num mundo menos poluente. Se ressaltássemos somente isto, ela seria estratégica para a soberania nacional.

Ainda, se em 1997 houve uma quebra do poder monopólico da empresa, esta quebra não garantiu investimentos de porte pelas empresas privadas compatíveis com um país de complexidade e dimensões como o Brasil. Foi ela a principal e estratégica financiadora. Estaríamos sempre vulneráveis às crises de fornecimento.

Nos anos de 2016 a 2022 a lógica da companhia era bem diferente da que ocorre atualmente. O foco era passar os ativos da companhia para as empresas privadas. Negócios nebulosos foram realizados para retirar a participação do estado do segmento. Procurou-se restringir a Petrobras para as áreas de exploração e produção, privatizando todas as demais áreas, inclusive a distribuição. Mesmo na exploração, o objetivo futuro era privatizar. Refinarias foram vendidas e canais de distribuição repassados para a iniciativa privada.

Retomar o conceito de empresa estratégica nacional parece ser o mote da nova gestão.

Cabe salientar que os resultados financeiros, até o momento, este ano que passou, são muito significativos, inclusive para os acionistas da empresa. Houve uma alta de 94% para as ações preferenciais e avanço de 74% para os ativos ordinários. Contrariando as expectativas do mercado para o primeiro ano do governo Lula, os papéis da Petrobras tiveram forte valorização em 2023. No último 27 de dezembro, a empresa alcançou um pico histórico no seu valor de mercado, em seus mais de 70 anos de existência, ultrapassando a marca de R$ 530 bilhões.

Essa jornada de recuperação começou por três ações que se supõem muito relevantes quais sejam, a mudança da política de formação de preços, um estatuto mais adequado e, principalmente, orientações objetivas para um novo plano qüinqüenal que começa a ser implantado. Iniciemos pelo último item.

Foi anunciado um plano estratégico para os anos de 2024 a 2028 que prevê aporte de 102 bilhões de dólares. O valor é 31% maior do que o previsto no plano estratégico anterior, de 2023 a 2027. Se corrigirmos pela inflação americana esperada para o período daria um aumento de um pouco mais de 20%.

Numa rápida leitura das diretrizes estratégicas do Plano, verificam-se alterações importantes.

Seriam: “Foco em ativos rentáveis de exploração e produção, com descarbonização crescente; Ênfase na adequação e aprimoramento do parque de refino; Busca pela transição energética justa; Aproveitamento das diferentes potencialidades do Brasil; Fortalecimento do acesso a mercados e busca da vanguarda global na transição energética.”

Nota-se o compromisso com a nova matriz energética, com um modelo de produção e consumo no País menos poluente, com a retomada do refino e distribuição de petróleo que continuará tendo peso por muitas décadas, com o aproveitamento e valorização dos recursos naturais que o Brasil dispõe a largo.

Não abandona a área de petróleo, mas aponta fortemente para a transição energética que deve se aprofundar nos próximos anos.

Neste plano, se comparado ao anterior (2023-2027), há modificações significativas. Os investimentos previstos passam de 65 bilhões de dólares para 95 bilhões, um aumento de 38%. Esse aumento compensado pela queda do pagamento de dividendos que passaria de 70 bilhões para 45 bilhões. Também os dividendos extraordinários, aqueles pagos quando há forte crescimento das receitas, cairiam cerca de 30%.

Novamente ressaltando, o plano inclui investimentos em projetos de transição energética, principalmente em geração de energia elétrica por eólicas. Uma real indicação de que a empresa pretende transformar-se em uma empresa energética, muito mais do que uma petrolífera simplesmente.

Do valor previsto para investimento, cerca de 72% serão aportados na área de exploração e produção. O refino, transporte e comercialização, por sua vez, representam 16% do novo orçamento total, enquanto gás e energia e baixo carbono tem 9% cada, e o gasto corporativo, 3%.

Serão destinados até US$ 11,5 bilhões para projetos de baixo carbono nos próximos cinco anos, ou 11% do investimento total da companhia numa visão ampliada para os demais setores da empresa envolvidos. A previsão para descarbonização representa avanço importante ante o plano anterior de 2023-2027, que previa apenas US$ 4,4 bilhões.

Foram definidos, também, projetos que pudessem auxiliar na geração de emprego e renda na área corporativa, além de incluir mais encomendas para a indústria naval e antecipar prazos para a entrega de grandes projetos.

Na exploração, a empresa prevê US$ 3,1 bilhões para a Margem Equatorial, muito promissora, US$ 3 bilhões para a exploração nas Bacias do Sudeste e US$ 1,3 bilhão para outros países e regiões.

Pretende-se, ainda, a perfuração de cerca de 50 poços em áreas onde a companhia possui direito de exploração em blocos adquiridos, o que pode aumentar em muito as reservas petrolíferas da empresa.

Mas, não se fica apenas no Plano norteador, distorções, também, começam a ser enfrentadas.

A venda de ativos a preços subfaturados que tinham como objetivo a retirada da companhia do mercado em prol da iniciativa privada passa a ser analisada.

Três processos de alienação de bens, concluídos em gestões anteriores, passaram a ser questionados. Um dos contratos de venda foi rescindido por parte da Petrobras, conforme foi destacado no mercado recentemente. Assim, o tema sobre a possível retomada dos investimentos passou a ser priorizado.

A venda da Refinaria de Mataripe, na Bahia, é um deles.  Em novembro de 2021 foi “entregue” ao fundo de investimento árabe Mubadala por US$ 1,65 bilhão. Esse valor, pelos analistas de mercado e bancos investidores, foi considerado muito abaixo do esperado. As piores avaliações apontavam para pelo menos o dobro desse valor.

As obras da Refinaria Abreu e Lima foram paralisadas desde 2015. Estava inserida no plano de privatização do governo anterior. Com o Novo PAC foram inseridas nas prioridades e devem gerar 30 mil empregos diretos e indiretos, aumentando consideravelmente a produção de diesel no país.  Sua capacidade de refino passará dos atuais de 100mil barris dia para 260mil em 2028.

Na área de distribuição, estuda-se a retomada da participação. Procura-se resgatar a marca BR, evitando a renovação do contrato de franquia para distribuidor privado.

Cabe ressaltar, também, que, embora não priorizada no plano estratégico, a produção do biodiesel verde é importante na transição energética e seria lógico resgatar subsidiária que tem essa finalidade e foi abandonada com orçamento irrisório. Em síntese, reverte-se a lógica de privatização que procurava direcionar os negócios da companhia.

Ponto importante para permitir que as mudanças ocorram foi a proposição e aprovação de alterações no estatuto da empresa, no final do ano de 2023.

A Assembléia Geral aprovou, além de novos critérios para escolha de dirigentes, a criação de uma reserva de remuneração do capital. “A medida cria mais uma opção de retenção de lucros, com objetivo de garantir a sustentabilidade econômica da empresa e a efetividade da política de remuneração ao acionista, que continua valendo nos mesmos moldes do que foi divulgado pela companhia em julho de 2023”, explicou a Petrobras em nota.

Essas mudanças permitirão agilidade na estratégia de modernização da empresa e retomada de seu caráter de sustentáculo para o desenvolvimento nacional, muito além de seu papel de empresa energética.

Por fim, vejamos a nova política de preços e seus impactos.

Muito se questionava a Política de Paridade Energética- PPI que atrelava a formação dos preços dos combustíveis às conjunturas internacionais apenas.

Em maio de 2023, a estatal abandonou a PPI. As condições de produção e logística passam a ser incorporadas para a definição dos preços de venda de gasolina e diesel às distribuidoras, diminuindo a alta volatilidade do mercado internacional.

Os combustíveis ficaram mais baratos ao longo do ano.

Um levantamento feito pela empresa em dezembro mostra que “o litro da gasolina barateou R$ 0,27, representando uma queda de 8,7%. No caso do diesel, a redução foi de R$ 1,10 (22,5%), sendo que a redução mais recente está vigorando a partir de 27 de dezembro; o botijão de gás de 13 quilos foi reduzido em R$ 10,40 (24,7%), e o querosene de aviação caiu R$ 1 por litro (19,6%).”

Em artigo da Agência Brasil observa-se que dois principais fatores externos contribuíram para que os preços dos combustíveis tivessem uma tendência de queda no cenário internacional.

“Um deles é a conjuntura econômica, com os Estados Unidos subindo taxas de juros para conter a inflação americana por meio da desaceleração da economia. Somam-se a isso desconfianças sobre a força do crescimento da China, segunda maior economia global.” 

Em análise do superintendente de pesquisa da FGV Energia, Márcio Couto, “essas dúvidas fazem com que as pessoas prevejam uma demanda por petróleo menor e faz com que haja uma redução no preço, contextualizando que o barril de petróleo flutuou na casa dos US$ 70, US$ 75, diferentemente de 2022, quando ultrapassou os US$ 100 seguidamente”.

O outro aspecto foi a guerra da Ucrânia e a reação da União Européia baixando preço e demanda para que a Rússia parasse o conflito. Os estoques se ampliaram em muito. A Rússia se tornou a principal fornecedora de diesel para o Brasil a preço mais acessível.

Aliado a isso, o próprio quadro interno, com a retomada dos níveis de refino e aumento da exploração de petróleo, mais do que justifica os resultados auferidos. Mesmo com a volta da oneração de tributos federais sobre combustíveis que haviam sido retirados em época eleitoral. Evidentemente, este apenas é o começo para tornar a empresa novamente um alicerce de nosso desenvolvimento. Muito há a se fazer. A retomada dos investimentos pode ser bem mais forte e há espaço para a queda de distribuição de dividendos. Mas, tem que ser negociada, embora sejam ainda altíssimos esses recursos, não é interessante causar traumas à empresa nesse embate agora.

A política de preços muito colaborou para o controle inflacionário no País, sem comprometer a saúde financeira da empresa.

Os avanços dados no refino, na produção de diesel, na transição energética, são animadores. E muito ajudam na imagem do país e na redução de nossas dificuldades na balança comercial. Também, investimentos em desenvolvimento tecnológico e mesmo culturais deverão ser retomados, voltando a desempenhar o papel que a empresa tinha como alavanca do desenvolvimento nacional.

Mais que se justifica a concepção de empresa estratégica.

Faca de muitos gumes https://bit.ly/3Ye45TD

Postado por Luciano Siqueira às 19:39 Nenhum comentário: 

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